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Por que os protestantes rejeitam 7 livros da bíblia - uma resposta curta


Gary Michuta é um especialista no cânon da Escritura, especialmente no que se refere aos livros deuterocanônicos, que os protestantes chamam de apócrifos.Você pode ler o seu livro "Por que as bíblias católicas são maiores" (Why catholics bibles ar bigger) para ver o que eu quero dizer.

Recentemente um amigo pediu a Gary uma resposta curta para responder por que os protestantes removeram sete livros da Bíblia. Aqui está a sua muito útil resposta:

Por que protestantes rejeitam os livros deuterocanônicos - resposta curta

Por Gary Michuta

A resposta curta é esta: quando Lutero foi encurralado no debate sobre o Purgatório, seu oponente, Johann Eck citou 2 Macabeus contra a posição de Lutero. Lutero foi forçado a dizer que 2 Macabeus não podia ser aceito no debate porque ele não era canônico. Mais tarde, Lutero apelou para São Jerônimo na rejeição de Macabeus (os concílios de Cartago, Hipona e Florença todos incluíram Macabeus como escritura canônica).

Apelando para São Jerônimo, ele também rejeitou os outros livros que Jerônimo havia rejeitado (Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Tobias, Judite, primeiro e segundo Macabeus, Daniel 13, e seções de Ester).

Daí em diante, Lutero (e todos os protestantes) têm tentado justificar sua remoção. Lutero em 1534 achava que Baruque era pequeno demais e não elevado o suficiente para ser da escrita de Jeremias. Ele também teve problemas com certos elementos históricos em Baruque. Mas, a longo prazo, a rejeição de Jerônimo realmente veio abaixo.

Como uma nota lateral, Jerônimo os rejeitou porque ele pensou que uma tradição manuscrita dos hebreus, conhecida como o "Masoteric Text", era idêntica à origem inspirada e que todas as outras cópias haviam sido feitas deste texto. Como os Deuteros não eram parte do MT, ele os rejeitou como não sendo da Escritura canônica.

O que Jerônimo não poderia ter sabido era que havia muitos manuscritos hebreus em circulação durante o primeiro século e que a Septuaginta Grega, uma tradução feita por judeus cerca de 200 a.C., ao menos em partes, parece ser uma tradução muito literal de uma tradição textual hebraica mais antiga que está agora perdida.

Isto significa que a idéia de Jerônimo da "Verdade Hebraica" (I.e., só aquilo que se encontra no MT hebraico é verdadeiro) foi demonstrado ser um erro. Com a posição de Jerônimo não mais sendo defensável, o Protestantismo realmente não tem uma perna histórica para se apoiar no que se refere ao seu Cânon do Antigo Testamento.

Tradução minha. Original em Catholic-Convert.

Pequeno Compêndio de Problemas Adventistas




- Ellen White plagiadora
Se isto é verdade - e é -, então o coração mesmo do adventismo, que se baseia nas supostas inspirações de White, possui erros. A coisa se agrava quando a igreja adventista, cujos líderes conhecem esse problema, o escondem dos fiéis que, em geral, de nada sabem.

- Sola Scriptura
É um princípio que é autocontraditório já que ele mesmo não se encontra na Escritura. Além disso, o Novo Testamento inteiro foi compendiado pela Igreja Católica, o que por si só prova a autoridade da Igreja como precedente ao próprio Cânon. Depois, esse compêndio ocorreu no século IV, o que significa que por mais de trezentos anos a Fé cristã foi transmitida sem o conceito da Sola Scriptura, o que leva a concluir, por fim, que ela não é o foco exclusivo, embora, claro, seja parte essencial da Revelação. Paulo chega a falar explicitamente que é preciso guardar a Tradição. A Igreja precede a Bíblia.

- Adventismo e Maçonaria
William Guilherme Miller, o iniciador do movimento adventista, era Maçom 33º grau. Há indícios que ele tenha continuado maçom mesmo depois. A Sra White demonstrou, em certa ocasião, conhecer um sinal maçom de alta hierarquia. No momento, ela afirmou ter sido informada por um anjo no intuito de converter um maçom com o qual tratava. Uma vez que suas revelações são falsas, é de se crer que ela conhecia o sinal por outro motivo: o de lidar com a maçonaria pessoalmente, o que é confirmado por uma estranha fotografia onde ela aparece junto com vários homens que fazem o conhecido sinal da mão oculta (foto que encabeça esse post). Além disso, o suposto convertido da maçonaria que teria se redimido através do dito sinal feito pela Sra White continuou sendo maçom depois da ocasião. Por fim, há obeliscos nos túmulos da família White, e também um discurso muito diplomático, hoje, de autoridades adventistas com relação à maçonaria.



- O sábado
Os primeiros cristãos não somente passaram a observar o domingo, como criticaram os judaizantes, que queriam manter costumes judaicos, dentre eles o do sábado. Paulo diz expressamente que o Sábado era uma sombra do Cristo. Assim, não se pode dizer que o adventismo mantém o costume dos Apóstolos e do Cristianismo Primitivo.

- Erros e absurdos
Entre as falsas profecias da Sra White há eventos não realizados e afirmações absurdas, como dizer que o uso de perucas ou a prática da masturbação levaria à loucura, e que o dia e a hora da Segunda Vinda lhe tinham sido revelados para, momentos depois, quando lhe advertiram de que isso contrariava as Escrituras, ela afirmar que isto lhe tinha sido ocultado novamente. Veja isso e isso.

- Contradição
Enquanto professam nominalmente o princípio da Sola Fide, segundo o qual a Fé é suficiente para a Salvação, os adventistas afirmam a possibilidade de se perder a salvação por uma vida desregrada, o que é contraditório, pois o não cumprimento de preceitos não implica na perda da Fé. Além disso, a Sra White falou categoricamente que a observância sabática implica em salvação eterna.

- Batismo e Fé em Ellen White
Embora a Sra White seja tão problemática, a Igreja Adventista a estima ao ponto de identificá-la com o “espírito de profecia”, referido em Apocalipse, e de submeter o batismo de novos adeptos à condição de declararem Fé no ministério dela.

- Mortalismo
O adventismo nega que a alma humana seja imortal, e com isso ela rejeita ensinos bíblicos, sobretudo os explícitos no Novo Testamento, baseando-se principalmente em versículos do Antigo Testamento que têm caráter ambíguo. Eles, por sua vez, rejeitam certos livros conhecidos como Deuterocanônicos, aos quais atribuem a defesa da imortalidade da alma. Considerando que tais livros constavam na Septuaginta, a versão grega das Sagradas Escrituras utilizadas por Jesus e pelos Apóstolos, não é de se crer que estes livros contenham erros. Inclusive, o Cânon judaico que os inclui é mais antigo do que o que os excluiu, e o que os excluiu intentava negar o caráter de revelação do Cristianismo. Um cristão negar o caráter revelado dos Deuterocanônicos é, assim, uma espécie de auto-sabotagem.

- Negação do Purgatório
O Purgatório, ou estado de purificação pós-morte, é referido por Jesus por expressões como “não sairá da prisão até ter pago o último centavo” e “será chicoteado poucas ou muitas vezes”, e ainda quando, tratando do pecado contra o Espírito Santo, Ele sugere um modo de perdão que se concede no outro mundo.

- Negação da Intercessão dos Santos
Negam a intercessão dos santos somente pela crença na mortalidade da alma e com base na única mediação de Cristo, pregada por São Paulo, mas não atentam que esta compreensão literalista implica na impossibilidade inclusive da oração de vivos por vivos, uma vez que isto também é intercessão e mediação, o que contraria o próprio São Paulo, que pede orações aos cristãos. Um adventista, que crê nos anjos da guarda, não saberia dizer, por exemplo, por que um anjo não poderia ou não deveria interceder por nós.

- Negação da Virgem Maria
Os adventistas renegam o Papel da Virgem Maria quando ele é explícito nas Escrituras. A Mulher do Gênesis e do Apocalipse, sendo a Mãe do Senhor, não pode ser a Igreja. Além disso, é fato que tanto Lucas quanto João a indicam como o tipo da Arca da Aliança, e que João a vê no Céu. Todos os primeiros cristãos, por sua vez, a veneraram. Ela é ainda a “Rainha Mãe”, um posto de honra de TODA a descendência de Davi.

- Negação do Batismo Infantil
Negam o batismo infantil, quando é conhecido pela arqueologia que os primeiros cristãos batizavam crianças. Nenhum texto bíblico o impede. O único impedimento é uma compreensão equivocada que equipara o batismo cristão ao de João Batista. Na verdade, o batismo cristão assume o lugar da circuncisão judaica, que era feita em crianças. Há pinturas dos primeiros séculos, nas catacumbas onde os cristãos se escondiam das perseguições romanas, que retratam batismos infantis e por efusão.


- Negação dos Milagres Católicos
Os adventistas fazem vista grossa aos inúmeros milagres acontecidos e que estão acontecendo continuamente na Igreja Católica – milagres evidentes, reconhecidos pela ciência, impossíveis de serem resultados de processos naturais – e, se furtando de olhá-los seriamente, atribuem-nos genericamente ao demônio. Nisto, se assemelham aos fariseus que atribuíam os milagres de Jesus a Belzebu. Este, relembra Jesus, é um pecado contra o Espírito Santo, pois é um fechamento de si à ação evidente de Deus.

- Profecia do Santuário
A Profecia do Santuário adventista, que é a sua espinha dorsal, sustentação de toda a sua crença, é equivocada em muitos pontos, e a correspondência entre o Dia da Expiação e o Fim dos Tempos não se encaixa inteiramente. Alguns dos problemas mais graves: negar a onisciência divina, já que Jesus precisa de livros para conhecer; supor atos sucessivos em Deus, o que nega a sua eternidade e faz o Céu equiparar-se ao tempo; nega diretamente a Escritura, pois diz que Jesus está no Lugar Santíssimo ainda completando o Seu ministério de Sumo Sacerdote quando Paulo diz explicitamente que, já na Sua ascensão, Ele sentou-se de vez no Seu trono (Hb 1,3; 4,14; 6, 19-20; 9, 11-12; 10, 11-12). A doutrina do juízo investigativo é particularmente absurda pois supõe a possibilidade de uma fixação do destino eterno de uma pessoa enquanto ela ainda está vivendo, o que leva à possibilidade de uma ulterior apostasia que não a levaria à perda da salvação, ou a uma futura conversão que não lhe resgataria o céu. Veja isso.

- Confusão entre Jesus e Antíoco
No cálculo das 2.300 tardes e manhãs, os adventistas atribuem a Jesus um trecho que, na verdade, se refere ao inimigo de Deus: Antíoco Epifânio. Basta comparar Dn 9 com Dn 11. Essa confusão faz ruir toda a interpretação histórica adventista.

- Negação do Inferno
Os adventistas negam o Inferno, quando Jesus fala diversas vezes dele, inclusive mostrando como alguém lá trava conversação com alguém de fora, o que significa que o inferno não é destruição. E o próprio livro do Apocalipse deixa claro, de modo explícito, que no inferno, as pessoas não são destruídas, mas ficam, pelos séculos dos séculos, chorando e rangendo os dentes.

- Prostituta do Apocalipse
Os adventistas interpretam o Apocalipse a la Ellen White. Mesmo fazendo abstração dos plágios, é fácil de ver que o papel atribuído à Igreja Católica como Meretriz do Apocalipse não procede. Vários são os pontos frágeis, mas aqui, neste breve resumo, destacamos um em particular. João diz claramente que a Meretriz é ali onde o Senhor foi crucificado. Logo, Jerusalém, cujos líderes se prostituíram com o Império Romano, permitindo a Herodes ocupar o lugar de Rei – uma paródia grosseira de Salomão, seja pela reconstrução do Templo, seja pelas muitas mulheres -, e proclamaram expressamente, diante do próprio Rei verdadeiro, estar sob o jugo de César.

- Negam a Eucaristia
Embora façam a Santa Ceia, esta não tem um papel claro na crença adventista. Fazem-no por mera obediência mecânica e sem compreensão da ordem dada por Jesus aos Apóstolos. É fato, porém, que desde o começo, os cristãos celebravam a Eucaristia como sendo o próprio Corpo e Sangue de Cristo, e que ela, sendo celebrada semanalmente, ocupava um lugar central. Havia toda uma preocupação de que os mártires recebessem o Corpo do Senhor antes da morte, o que então recebia o nome de viático. São Paulo chega a dizer que alguns adoecem e morrem porque não distinguem na Eucaristia o Corpo e o Sangue do Senhor e a recebem indignamente.

Aborto
Recentemente, soubemos de uma notícia estarrecedora: a Igreja Adventista tem hospitais nos Estados Unidos que fazem abortos a pedido. Inclusive o Pastor Nic Samojluk tem se empenhado em combater isso que ele considera uma traição aos princípios evangélicos. Aqui o site dele. Há ainda uma petição, feita por alguns adventistas que se escandalizaram com isso, para que a Igreja Adventista pare de praticar abortos em seus hospitais americanos. Veja aqui.

***



Estes erros são somente um pequeno compêndio. Esta lista pode ser acrescida depois, e cada ponto destes vai aqui somente referido, sendo possível desenvolvê-los indefinidamente. Todos eles podem, igualmente, ser facilmente comprovados. A pergunta é: como continuar adventista?

Fábio

O Mistério do Sabbath


Card. Jean Daniélou

O estudo dos sacramentos nos tem mostrado que eles são, na era presente da história sagrada, a continuação dos grandes trabalhos operados por Deus no Antigo Testamento e no Novo, e a prefiguração da Escatologia. E disso se segue que nós não podemos entender inteiramente certos aspectos dos sacramentos a menos que nós os vejamos em sua perspectiva bíblica. Isto também é verdade com relação a certos outros aspectos do culto Cristão, e, em particular, da liturgia das grandes festas. Aqui nós temos um ciclo duplo, um semanal e um anual. Nós devemos estudar primeiro um e depois o outro, nos restringindo, naturalmente, aos aspectos desses ciclos que estão contidos no prolongamento da Sagrada Escritura, e especialmente do Velho Testamento.

Há, antes de tudo, a festa semanal, isto é, o Domingo. O Domingo é uma criação puramente cristã, conectada com o fato histórico da Ressurreição do Senhor. Mas desde que esta é uma festa semanal, surge a questão de sua relação com o Sábado Judaico. Antes de estudar o simbolismo do Domingo, então, nós precisamos primeiramente colocar o Domingo em sua relação própria com o Sábado, nossa preocupação sendo aqui com a tipologia; e depois, com relação ao descanso sabático, nossa preocupação será com ele enquanto instituição. Devemos somente estudar esta última questão de um modo secundário.

Os tipos do Antigo testamento são pessoas, como Noé ou Isaac; eventos, como o cruzamento do Mar Vermelho ou a entrada na Terra Prometida; e também instituições, como o Templo, ou a circuncisão. O Sábado entra na terceira categoria, de que ele é um dos maiores exemplos. O seu caráter de tipo é trazido no Novo Testamento: "Não deixem que ninguém, então, vos incomode por conta do que comer ou beber, ou em relação a festivais ou luas novas ou a sábados. Isso tudo é sombra das coisas que deviam vir, mas a substância é Cristo." (Cl 2,16). Aqui está a afirmação que será o princípio guia de todo o nosso estudo: a substância, a realidade do Sábado é Cristo. Nós precisamos, então, descobrir a realidade religiosa do Sábado, pois quando ele é posto ao lado de outros tipos, mostrará um aspecto do que Cristo é. Esta é a razão por que o estudo do Sábado contém um ensinamento que é sempre de valor para nós, mesmo que a instituição do Sábado como tal tenha sido abolida desde que Cristo, Que é o seu cumprimento, apareceu.

O conteúdo da idéia do Sábado é expresso em dois versos de Êxodo que pontuam seus dois aspectos essenciais. De um lado, o Sábado é um dia de descanso (anapausis) consagrado a Yahweh" (Ex 16,25); de outro lado, o Sábado é "o sétimo dia" (hebdome). Um dia de descanso, o sétimo dia -- estes são os dois temas essenciais contidos na idéia do Sábado. O Antigo Testamento os apresenta como uma prescrição literal; o Novo Testamento mostra que eles estão agora cumpridos: pois Cristo é o verdadeiro descanso, e é o verdadeiro sétimo dia. E isto nos mostra de uma vez o que é peculiar à tipologia do Sábado: é uma tipologia do tempo.

Esta tipologia do Sábado é mencionada no próprio Antigo Testamento. Temos muitas vezes considerado como o Velho testamento nos dá uma primária visão espiritual das instituições mosaicas, uma primária tipologia bíblica. Esta consideração encontra uma aplicação exepcional, e de um duplo ponto de vista, como nós iremos agora demonstrar. Antes de tudo, encontramos uma interpretação escatológica do Sábado, que é o símbolo do tempo como sagrado. Devemos dizer que ele carrega a mesma relação com o tempo e a história - aquela de ser seu grande símbolo bíblico -, assim como o templo, a outra essencial instituição do Judaísmo, simboliza o universo e o espaço. O Sabbath expressa a consagração do tempo a Deus, como o templo expressa a do espaço. E assim como o tempo, pela consagração de um espaço limitado, foi o sacramento e prefiguração da consagração de todo o universo, a ser realizado na ressurreição de Jesus e a criação do cosmos da Igreja, assim o Sabbath, pela consagração de um particular dia da semana, foi o sacramento da consagração a Deus de toda a história, que também encontrou seu princípio na ressurreição do Verbo Encarnado.

O outro elemento no Sabbath é a idéia do descanso (anapausis). Aqui nós também encontramos uma primeira tipologia no Antigo Testamento, consistindo em uma espiritualização da idéia de descanso. Nos profetas, e especialmente em Isaías, nós encontramos a afirmação repetida pelos Santos Padres de que o verdadeiro Sabbath, a verdadeira anapausis, não é cessar o trabalho físico, mas cessar de pecar. "As luas novas e os Sabbaths e outros festivais eu não os aceito, suas assembléias são más... Cessem de agir perversamente, aprendam a fazer o bem..." (Is 1, 13-19). E esta passagem é mais importante porque, como nós veremos agora, o ensino de Cristo é exatamente neste sentido. Esta espiritualização da idéia do descanso sabático, que, obviamente, não exclui a idéia de uma real prática do Sabbath, é fundada de novo em Filo, tranformado por seus esquemas platônicos, quando ele vê no Sabbath o símbolo da alma "que descansa em Deus e não se dá a mais nenhum trabalho mortal" (De migr. Abrah.91)

Nós encontramos uma dupla tipologia do Sábado já desenhado no Antigo Testamento e no Judaísmo apocaliptico e alexandrino. Mas esta tipologia ainda carece de precisão quanto ao seu contéudo, e, além disso, ela é ainda indeterminada quanto ao seu objeto. Como São Paulo nos diz, é Cristo Que é a realidade de que o Sabbath é somente a sombra. Assim os Santos Padres não foram os primeiros a afirmar este fato, pois a interpretação cristológica do Sábado já está considerada no Novo Testamento. Nós devemos agora tomar novamente os dois aspectos da tipologia do Sabbath, mas na ordem reversa. O Novo Testamento antes de tudo estende a espiritualização do Sábado ao lado das linhas já demarcadas por Isaías; mas pontua ao mesmo tempo que o Sabbath agora é passado, já que Cristo é a realidade que ele prefigurou. Este aspecto aparece principalmente nas passagens do Evangelho em que nós vemos Cristo em conflito com os fariseus na questão do descanso sabático. A tipologia do Sabbath não aparece formulada numa teoria, como se dará com São Paulo, mas como existente e operativo na real oposição entre os fariseus que encarnam a figura e Cristo que representa a realidade. O primeiro texto é fundado em São Mateus (12,1-13). Os discípulos estão pegando espigas de milho num campo no Sábado; os fariseus protestam, e Cristo vem em defesa dos Seus.1

Ele começa mostrando que o próprio Velho Testamento dá exemplos de violações legítimas do Sabbath: "Você não leu o que Davi fez quando ele e seus companheiros estavam com fome? Em como ele entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição que nem ele nem seus amigos poderiam legalmente comer, mas só os sacerdotes? Ou vocês não leram na Lei, que nos dias de Sábado os sacerdotes no templo transgridem o Sabbath e ficam sem culpa?" (12,3-5).

E agora vêm as palavras mais importantes: "Mas eu digo a vocês que Alguém maior que o templo está aqui. Mas se vocês soubessem o que isto significa, 'Eu quero misericórdia e não sacrifício,' vocês nunca teriam condenado o inocente; pois o Filho do Homem é Senhor até do Sabbath" (5-8). Nós devemos acrescer a esta passagem outra que a segue imediatamente, onde nós vemos Jesus, no dia de Sábado, curando um homem com a mão seca. Jesus respondeu aos que O atacavam: "É permitido fazer o bem no Sabbath" (12,12).2 Nós temos aqui uma crítica do abuso causado pela formulação dos fariseus na sua forma de entender o descanso sabático: isto é óbvio. Mas há muito mais. Em primeiro lugar, Jesus mostra o caráter secundário do Sabbath: ele não é uma lei absoluta, mas uma instituição provisória. E Ele dá um exemplo disso, inaugurando uma linha de argumento que os Santos Padres irão tomar e desenvolver. Ele permite que seja entendido que Ele é livre para dispor desta instituição - e, pelo exemplo de Seus discípulos, Ele deixa aparecer que sua hora - da observância literal do Sabbath - já passou. Mas há ainda mais: a analogia com o Templo nos mostra que as duas instituições são paralelas. O Sabbath e o Templo passaram porque o próprio Cristo, o Sabbath e o templo do Novo Testamento, está aqui.

E o contexto nos dá dois exemplos desta realidade do novo Sabbath que aparece com Cristo. De um lado, a passagem que nós citamos é imediatamente precedida por estas palavras de Jesus: "Venham a Mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso. Tomem minha carga sobre vocês, e aprendam de Mim que sou manso e humilde de coração; e encontrarão descanso (anapausis) para suas almas." (11, 29-30)3 Cristo é mostrado, então, como o verdadeiro descanso, a anapausis do verdadeiro Sabbath. E, em segundo lugar, o episódio é seguido pela cura no Sábado do homem com a mão seca. Esta cura, como todos os milagres de Jesus, é uma antecipada manifestação da vinda do Seu reino, do verdadeiro descanso. A coincidência desta ação com o Sabbath nos mostra a relação entre os dois eventos, assim como a expulsão dos mercadores do Templo mostra que Jesus é o mestre do Templo e Ele mesmo o verdadeiro Templo. Assim, nestas passagens, Cristo aparece concretamente como inaugurando o verdadeiro Sabbath que substitui o Sabbath figurativo. A oposição dos fariseus é inexplicável de outro modo, a menos que eles vissem que Ele pretendia dar um substituto para a instituição mosaica. A tipologia posterior só desenvolveu as consequências desta atitude concreta do Cristo.

O Evangelho de são João nos dá um episódio análogo; a cura no Sábado do paralítico na piscina de Bethesda. Nós já falamos deste evento em conexão com o Batismo. Os judeus perseguiram Jesus porque Ele fez essas coisas no Sábado. Jesus respondeu: "Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho." (5,17). E ainda mais os judeus agora procuravam matá-Lo: "porque Ele fez de Si mesmo igual a Deus." (5,18). A relação destas misteriosas palavras de Nosso Senhor com o descanso sabático é clara. Mas Cristo está falando de um nível mais alto. Os judeus da época de Cristo, em sua exaltação do Sabbath, julgavam que o próprio Deus estava sujeito a ele. Nós encontramos tal idéia expressa no Livro dos Jubileus (2,16). A palavra de Cristo formalmente condena a aplicação a Deus do descanso sabático entendido como ociosidade. Em Deus não há ociosidade; mas Sua atividade que, como diz São Clemente de Alexandria, é idêntica ao Seu amor, é exercida sem cessar. E isto é de grande importância: a ociosidade, ócio, do Sabbath aparece de agora em diante como uma noção literal e inferior, dando lugar à busca do seu significado espiritual. Os Santos Padres usavam este texto para condenar o descanso sabático mostrando que esta não é a lei do universo e que o Cristianismo é a realidade da qual a ociosidade é a figura. Orígenes, usando o mesmo texto de São João, escreve: "Ele mostra que Deus não pode cessar de ordenar o mundo em algum sábado deste mundo. O verdadeiro Sabbath, no qual Deus irá descansar de todas as Suas obras, irá, assim, ser o mundo que vem". (Ho. Nm. 22, 4). O trabalho de Cristo é visto como a realidade que vem substituir a figurativa ociosidade do Sabbath.

Assim, nós temos visto no próprio Evangelho, de uma maneira concreta, a oposição entre Cristo eo Sabbath. Esta oposição ainda está velada. Houve um tempo em que a figura e a realidade existiram lado a lado. Esta coexistência continuou na comunidade dos cristãos primitivos. Nós vemos os Apóstolos em Jerusalém observando o Sabbath depois da Ressurreição de Cristo (At 13,14; 16,3). Mas isto é uma sobrevivência de um mundo que já passou, enquanto que a realidade que o substitui já está presente. É a mesma coisa com o Templo: os Apóstolos continuam a ir lá orar, enquanto que o novo Templo, que é a comunidade cristã, já existia. Nós encontramos aqui um daqueles momentos decisivos da história, uma articulação essencial na qual a nova realidade aparece e se desliga passo a passo de um mundo antigo que está morrendo. A destruição de Jerusale´m trouxe a destruição do Templo: São Paulo proclama o fim do Sábado (Rm 14,6). Apenas umas poucas comunidades judaicas continuaram a observar o sábado (Eusebius, Hist. Eccles. III, 27). E também foi São Paulo quem formulou o significado desta evolução histórica. Se o Sábado estava a morrer pouco a pouco, isto se dava porque ele era apenas uma instituição provisória e uma figura do mundo a vir. Agora este mundo chegou: a figura precisa apenas desaparecer: "Não deixeis, então, que ninguém vos chateie com relação ao que comer ou beber, ou a respeito de festivais ou luas novas ou sábados. Estas coisas eram sombra das que haviam de vir, mas a substância é Cristo" (Col 2,16). Assim, o Evangelho nos mostra no próprio Cristo a verdade prefigurada pelo descanso sabático, o significado profético que Isaías tinha já começado a perceber. O Novo Testamento também nos mostra que Cristo é o "sétimo dia", isto é, o tempo sagrado que sucede aos dias profanos, de que a história da criação nos dá a primeira interpretação teológica. Aqui de novo a qualidade especial da interpretação do Novo Testamento é que ele é cristológico: ele nos mostra no próprio Cristo este sétimo dia, de que o Antigo Testamento percebeu somente o significado profético. O texto principal aqui é o prólogo de São Mateus. Os ancestrais de Cristo estão organizados em seis grupos de sete pessoas cada. Deste modo, Cristo aparece como inaugurante da sétima era do mundo, como sendo n'Ele mesmo sozinho esta sétima era. E é claro que este é realmente o significado desta organização da genealogia. O Livro das Crônicas, quando dá as genealogias de Abraão e Noé, agrupa seus descendentes sob o número simbólico de setenta. Estes agrupamentos de sete são obviamente intencionais. Aquele dado por São Mateus é uma aplicação a Cristo do simbolismo cronológico da semana sagrada. A genealogia dada por São Lucas também é fundada no número 7, mas de um modo diferente: ele dá setenta e sete nomes de Adão a Jesus. Gregório de Nissa já tinha considerado sobre esta característica dos setes. E assim a genealogia de São Mateus faz do sétimo dia uma figura do Cristo.

A Epístola aos Hebreus justifica esta interpretação mostrando que o sétimo dia verdadeiramente teve este significado profético (3,7; 4,11). O autor começa com as palavras do Salmo 94: "Eles não entrarão no Meu descanso" (auapausis), e conecta este descanso explicitamente com o sétimo dia (4,4). Nós estamos lidando, então, com o repouso do sétimo dia, ou seja, com o descanso na sua forma escatológica. E este descanso, como o autor mostra, não pode ser aquele que é dito que Deus descansou no sétimo dia. Pois de fato "as obras de Deus terminaram desde o início do mundo" (4,3) e aqui está o futuro do mundo que está em questão. Por isso a interpretação "arqueológica", a do Antigo Testamento, é afastada. Não pode haver nenhuma questão futura da entrada na Terra Prometida, embora este seja o significado obviamente sugerido pelo Salmo. Mas, como o autor diz: "Se Josué já os conduziu ao descanso, Davi, tanto tempo depois, não teria falado de outro dia (4,8). Nem pode a queda de Jericó depois de sete dias ser aquele que é significado pela anapausis doo salmo. Portanto, além do descanso de Deus, na ordem da criação, e do descanso de Israel, na ordem do Antigo Testamento, há um terceiro descanso, que está além daquele de que o salmo fala: "Permanece, portanto, um descanso sabático para o povo de Deus. Pois aquele que que entrou no seu descanso, descansou ele mesmo de suas obras, como Deus descansou das Suas. Apressemo-nos para entrar naquele descanso (4,10-11).

Este texto é considerável especialmente pelo paralelismo que estabelece entre os três "sabatismos" de que o Sabbath litúrgico é figura. Mostra que no Judaísmo ele é uma comemoração da criação e de sua consagração a Deus; e depois também uma comemoração da entrada na Terra Prometida e da realização temporal da promessa. Mas estes dois significados são por sua vez a prefiguração e a profecia de outro sabatismo, de um sétimo dia, que não veio ainda e que é realizado em Jesus Cristo, desde que a partir de agora este sétimo dia existe, e nós deveremos nos apressar para entrar nele. Assim, nós encontramos uma vez mais, mas comentado e justificado, o tema escatológico indicado na genealogia de Mateus. O simbolismo do sétimo dia serve para enfatizar o caráter do Cristianismo como um evento escatológico. Nós estamos agora colocados na perspectiva da história, e esta é, de fato, o significado de toda a Epístola. Deus que deu aos judeus a primeira oportunidade para a salvação, que eles recusaram, está agora oferecendo uma nova. Esta salvação é Cristo. Ele é o sétimo dia, a sétima era do mundo. Uma nova era de graça é aberta com a Sua vinda. Nós não devemos deixá-la passar, como os judeus fizeram. Notemos antes que o tema do descanso e o tema do sétimo dia, os aspectos espiritual e escatológico estão reunidos na única pessoa de Cristo que lhes dá seu significado. A mensagem do Novo Testamento está, sobretudo, de fato, em apontar que Cristo é quem foi anunciado por todas as prefigurações do Antigo Testamento.

O Novo Testamento nos mostra a abolição do Sábado e seu cumprimento em Cristo como um fato realizado. Os escritores da Igreja daí em diante explicariam o significado deste fato. Esta abolição levantou, de fato, como aquelas das instituições mosaicas, um difícil problema. De um lado, a prática literal do Sabbath é o objeto de um mandamento expresso de Deus no Antigo Testamento, que era considerado pelos cristãos como um livro inspirado. Mas também, esta prática foi abolida por Cristo, e o Sabbath agora possuía para os cristãos somente o valor de um símbolo. Como estas duas afirmações poderiam ser reconciliadas? É impossível dizer que Deus poderia contradizer-Se. Duas soluções extremas agora se apresentam. De um lado, o judaizante manteve a prática literal do Sabbath. Eles estavam, então, em acordo com o Antigo Testamento, mas em conflito com a Igreja. De outro lado, os gnósticos rejeitaram o Antigo Testamento por considerá-lo obra de outro Deus. Isto eliminava a contradição, mas levava a uma rejeição do Antigo Testamento, uma rejeição que era igualmente inaceitável. Os cristãos viam claramente que eles deveriam afirmar ambas as coisas, a inspiração do Antigo Testamento e o caráter antiquado do Sábado. Mas levou certo tempo para ver como era possível reconciliar as duas afirmações.

Uma primeira solução consistia em negar pura e simplesmente que a prática literal do Sabbath tenha sido alguma vez o objeto de um mandamento de Deus. Esta é a solução de Pseudo-Barnabé. Para ele, as instituições do Antigo Testamento eram puramente uma linguagem simbólica, que é o propósito da gnose entender. Mas os judeus não possuíam esta gnose: eles tomavam sua linguagem literalmente, e todas as suas práticas nunca cessaram de ser condenadas por Deus. Essa do Sabbath em particular foi sempre reprovada (II.5). Como M. Lestringant bem diz: "Para ele, a exegese cristã não precisava dar à Escritura um novo significado, pois em nenhum momento ela teve outro significado. Deus sempre revelou uma só verdade. Os sacrifícios, o templo, circuncisão, foram apenas sinais. Suas práticas constituíam uma flagrante violação da vontade de Deus. E, além disso, Deus tinha formalmente advertido as nações infiéis que Ele não desejava nem sacrifício nem oferenda" (Essai sur l'unite de la revelation biblique, p. 168). Esta solução simplificava a questão. Cristo não precisava dar um significado figurativo ao Sabbath, pois ele nunca tinha tido nenhum outro significado, ele nunca tinha sido outra coisa além de um símbolo. O senso figurativo da Escritura é o literal, desde que Moisés intentou falar em linguagem simbólica. Esta solução radical, que depois ia ser a de Pascal, enquanto assegurava a unidade da Revelação, tirava do Antigo Testamento a sua própria substância.

A solução de Justino era menos absoluta. Ele mostra primeiro como, mesmo no Antigo Testamento, o mandamento do Sabbath não era o objeto de uma obrigação incondicional desde que ele admitia exceções: "Deus desejou fazer seus sacerdotes cometerem pecado quando eles ofereceram sacrifícios no dia de Sábado, e também aqueles que receberam ou deram circuncisão no dia de Sábado, desde que Ele ordenou que o recém-nascido deveria ser circuncidado no oitavo dia mesmo que ele caísse no Sábado?" (Dial. XXVII, 5.) Justino reproduz a linha de argumentação do próprio Cristo conforme dada em São Mateus (12, 5), e acrescenta um segundo exemplo àquele dado por Cristo. Nós estamos no começo de uma linha de raciocínio que nós devemos encontrar de novo e de novo através de toda a literatura patrística e que foi constantemente enriquecida com novos exemplos. Tertuliano dá aqueles da queda de Jericó no dia de Sábado (Jos 6,4) e o da luta dos Macabeus no Sábado (Adv. Jud. 4; P. L. II, 606 B-C). Encontramos todos estes textos novamente em Irineu (Adv. haer. V. V. 8; P. G. VII, 994-995), em Aphraates (Dem XIII, P. S. I, 568569), e no Testemunia Adversus Judaeos transmitido sob o nome de Gregório de Nissa (P. G. XLVI, 222 B-C). Esta é uma primeira forma de argumento que continua aquele do Evangelho.

A segunda linha de argumentação também procede do Evangelho: é o fato de que Deus não observa o Sabbath no governo do mundo. Nós já consideramos, em conexão com São João 5,17, que esta é uma resposta à noção judaica de que o próprio Deus está sujeito ao Sabbath. São Justino retorna duas vezes este argumento: "Olhem as estrelas, elas não descansam, elas não observam o Sabbath" (XXIII, 3). E a seguir: "Deus governa o mundo nesse dia do mesmo modo que Ele o governa em todos os outros" (XXIX, 3). Dentro do Judaísmo, certos homens como Filo também rejeitam como sendo excessiva demais a idéia de Deus estando sujeito ao Sabbath. O argumento de Justino foi tirado de Clemente de Alexandria: "Sendo bom, se (Deus) cessasse de fazer o bem, Ele cessaria de ser Deus" (Strom. VI, 16; Staehlin, 504, 1-5). Nós encontramos isto de novo em Orígenes: "Nós sempre vemos que Deus está agindo, e não há Sabbath no qual Ele não aja" (Hom. num. XXIII, 4). Isto está na Didascalia dos Apóstolos: "A economia do universo sempre continua, as estrelas não cessam nem por um instante no seu movimento regular produzido pela ordem de Deus. Se Ele diz: 'Você deve observar o descanso, como é que Ele mesmo age, criando, conservando, nutrindo, governando a nós e Suas criaturas? .... Mas estas coisas (o preceito do descanso sabático) foram estabelecidas por um tempo, como figura." (Const. Ap. VI, 18, 17).

Estes dois primeiros argumentos contra o valor absoluto do descanso sabático são, então, desenvolvidos do próprio Evangelho. Justino acrescenta um terceiro, que é o ais importante para uma compreensão da sua posição no que concerne ao Sabbath: "Aqueles que foram chamados justos antes de Moisés e Abraão e que foram agradáveis a Deus, não foram circuncidados nem observavam o Sabbath. Por que Deus não os ensinou estas práticas?" (XXVII, 5. Veja também XLVI, 2-3) Não apenas o mundo não está sujeito ao Sabbath, mas os patriarcas, que os judeus veneravam, não foram submetidos a ele por Deus. Certos judeus, como o autor do Livro dos Jubileus, de fato nos mostram os patriarcas como servadores do Sabbath. Mas isto é um exagero óbvio. O Sabbath não é, então, de nenhum modo necessário à salvação, desde que os próprios judeus reconheceram que Abraão foi salvo sem tê-lo praticado (XVLV, 3). Esta linha de argumentação, que não é encontrada no Novo Testamento em termos explícitos, mas de que nós encontramos o equivalente, também foi usado pela tradição inteira (Tertulian Adv. Jud. 4; P. L. II, 606; Aphraates, Dem. XIII, 8; P. S. I, 558). Nós o encontramos também na Didascalia: "Se Deus tivesse querido que nós observássemos o descanso depois de seis dias, Ele teria começado por fazer os patriarcas observarem-no e todos os homens justos que viveram antes de Moisés." (Cons. Ap. VI, 18, 16).

Mas, então, por que o Sabbath foi instituído? Justino não vai tão longe quanto Barnabé; ele mantém que Deus quis a prática do Sabbath no seu modo literal. Ele não é, então, uma pura figura. Mas esta divina instituição não é uma honra para Israel; ela não marca qualquer progresso no plano da salvação. Ao contrário, é somente por causa da maldade de Israel que Deus impôs o Sabbath a eles: "Foi somente para vocês que a circuncisão foi necessária, pois Noé e Melquisedec não observaram o Sabbath e contudo eles agradaram a Deus, e também aqueles que os seguiram, até Moisés, sob o qual nós vemos seu povo mau fazendo um bezerro de ouro no deserto.... Veja por que Deus Se adaptou ao vosso povo. O Sabbath foi prescrito para vós para vos fazer lembrar de Deus." (XIX, 6. Veja também XXVIL, 2; XLV, 3; XLVI, 5; CXII, 4). É porque, então, os judeus são infiéis à lei natural do divino culto que, para guiá-los a ela, Deus lhes deu o Sábado como meio de educação. O Sabbath, então, é visto como o próprio sinal da reprovação do povo judeu: "É de fato por causa de vossa própria maldade e aquela de vossos pais que, para vos marcar com um sinal, Deus prescreveu que que deveríeis observar o Sabath" (XXI, 1).

Assim, a existência do Sabbath é justificada, mas ainda não como um estágio na história. Notemos de fato que, de acordo com Justino, não apenas era o Sabbath uma instituição inferior aos olhos de Deus, já que Ele tinha uma melhor ordem em vista, mas esta melhor ordem foi aquela que Ele instituiu no começo. A situação dos patriarcas é superior àquela dos judeus, que marca uma decadência. Cristo, então, restabeleceu a ordem primitiva. Em outras palavras, Justino ainda não vê nenhuma outra via para evitar a contradição em Deus, além de admitir que Sua vontade foi sempre que não deveria haver nenhum Sabbath, e que ele era somente uma infração provisória da ordem imutável que Ele tinha estabelecido. Isto é o que Justino explicitamente afirma: "Deus não aceita sacrifícios de vós; e se Ele uma vez vos ordenou oferecê-los, não foi por Ele precisar deles mas por causa dos vossos pecados... Se nós não admitimos isto, nós caímos em idéias absurdas tais como a de que não era o mesmo Deus que existiu no tempo de Henoque e de todos aqueles  que não observaram o Sabbath, desde que foi Moisés quem o ordenou para ser observado... Foi porque os homens eram pecadores que Ele que é sempre o mesmo prescreveu estas ordenanças e outras como elas" (XXIII, 1). A imutabilidade de Deu não pode ser salva, de acordo com Justino, exceto pela imutabilidade do mundo estabelecido por Ele. Ele não tem nenhuma idéia de revelação progressiva. E nós encontramos uma vez mais em Eusébio de Cesaréia esta mesma concepção que nega toda a história.

De qualquer modo, nós podemos ver de agora em diante que Deus suprime o Sabbath sem contradizer-Se de qualquer maneira, desde que Ele foi levado a instituí-lo somente porque foi forçado a fazê-lo pela maldade do povo judeu, e em consequência Ele teve o desejo de fazê-lo desaparecer tão logo Ele tivesse realizado Seu propósito de educação: "Por isso, assim como a circuncisão começou com Abraão, assim o Sabbath começou com Moisés (e ele mostrou que estas instituições foram feitas por causa da dureza de seu povo); assim também, pela vontade de Deus eles tiveram que desaparecer n'Ele que nasceu de uma Virgem da raça de Abraão, Cristo, o Filho de Deus" (XLIII, 1). A vinda de Cristo marca o fim desta economia provisória. Ela visou apenas preparar para Ele. Sua prática literal foi um esboço do que Cristo estava para realizar em plenitude: "Eu posso, tomando-as uma por uma, mostrar que todas as prescrições de Moisés foram somente tipos, anúncios, símbolos daquilo que estava por vir com Cristo" (XLII, 4). O verdadeiro Sabbath não consiste em consagrar um dia apenas a Deus, mas todos os dias, e não em abster-se de trabalhos físicos, mas do pecado: "A nova lei quer que observeis continuamente o Sabbath, ainda que penseis que sois piedosos por causa do descanso e por não fazer nada num dia. Não refletis na razão do preceito. Não é nestas coisas que o Senhor nosso Deus é agradado. Se houver entre vós um perjurador ou um ladrão, que ele cesse (pausastho); se houver um adúltero, que ele faça penitência e ele terá observado o Sabbath de prazeres, o verdadeiro Sabbath de Deus" (XII, 3).

Estas últimas linhas são importantes. Elas claramente contrastam a prática exterior do descanso em um dia da semana, que é somente uma figura, com a prática interior de que este descanso é o símbolo. Na realidade, o Sabbath, isto é, a vida cristã inteira deveria ser consagrada a Deus - e isto não em abster-se do trabalho com nossas mãos, mas em cessar de pecar. O contexto nos mostra que este cessar de pecar deveria ser entendido do Batismo. É Cristo, então, Quem é o verdadeiro Sabbath, de que o Sabbath judaico era a figura. O que é importante aqui é que nós encontramos a interpretação espiritual de Isaías, que está no pano de fundo desta passagem inteira (Justino a cita extensamente, XII, 1; XIII, 2-9; XIV, 4; XV, 2-7), relatada na economia do Cristianismo. O verdadeiro Sabbath de que Isaías falou, e que consiste em "cessar de fazer o mal" (1,16), está em Cristo que é a cessação do pecado, condição que Ele somente cumpre. Cristo nos introduz no único Sabbath, de que os Sabbaths da Lei foram somente uma prefiguração profética que não nos deu o que eles significavam. O processo de espiritualização começado com Isaías é continuado por Justino e assim realizado na dispensação cristã. Nós estamos agora, portanto, na mais autêntica linha de tipologia bíblica.

Mas permanece o fato de que em Justino é sobretudo o aspecto negativo da tipologia do Sabbath que aparece, quer dizer, a justificação do desaparecimento da observância do preceito literal. Isto é facilmente explicado quando nós percebemos que a sua atenção estava focada no conflito com os judeus. Irineu teve um problema diferente, pois ele lidou com o erro reverso, aquele dos Gnósticos. Seu pensamento sobre este ponto não é sempre perfeitamente homogêneo. Às vezes ele aceita as pressuposições de Justino e admite que a aparição da legislação é conectada com a decadência de Israel no Egito (IV, 16, 3; P. G. VII, 1017 A-B). Mas em toda parte o seu pensamento mais profundo aparece: Deus está formando a humanidade de acordo com uma economia progressiva (IV, 38, 1). É muito normal, então, que a Lei deveria ter correspondido a uma humanidade ainda num estado de infância, como é normal que ela deveria dar lugar a uma economia mais perfeita quando a humanidade tiver sido trazida a uma maior perfeição. Assim a verdadeira idéia do Sabbath agora aparece. Ele pode hoje ser abolido, e ainda assim, ontem, ter sido a expressão da vontade divina: não é Deus Quem mudou, mas antes o homem que existe no tempo. Assim Irineu pode mostrar que o Sabbath é uma excelente instituição (IV, 8, 2; P. G. VII, 994) e ao mesmo tempo afirma ele está agora abolido. Não é por causa da maldade do homem que a Lei apareceu, como se ela fosse uma regressão em relação à ordem imutável querida por Deus, mas é porque o desenvolvimento da humanidade tem sido progressivo; ela precisou começar com uma educação adaptada aos seus começos. Mas agora que a humanidade emergiu deste estado de infância, a sombra da Lei deve dar lugar à realidade do Evangelho: "A lei não irá mais ordenar que passe um dia em descanso e ociosidade quem observa o Sabbath todos os dias no templo de Deus que é o seu próprio coração" (Dem 96).

A instituição judaica do Sabbath agora aparece como sendo a figura do Sabbath perpétuo que é o Cristianismo. Nós devemos notar o paralelismo com o templo. Aqui nós encontramos de novo a tipologia de Justino que Irineus desenvolve ainda mais: "Deus deu (os Sabbaths) como um sinal. Mas estes sinais não faltam em simbolismo, quer dizer, não deixam de ensinar; nem são eles arbitrários, desde que eles foram instituídos por um artesão sábio, pois os Sabbaths ensinaram perseverança no serviço de Deus suportando tudo durante o dia. 'Nós agora somos', diz São Paulo 'como ovelhas para ser sacrificadas durante todo o dia', quer dizer, nós somos consagrados, seguindo a nossa fé em todo o tempo, perseverando nisto e nos abstendo de toda a cobiça, nem comprando nem possuindo qualquer tesouro na terra.  E por isso foi significado também, de algum modo, o descanso de Deus depois da criação, quer dizer, o reino do qual o homem que perseverou em seguir a Deus tomará parte na Sua festa." (IV, 16, 1; P. G. 1015-1016).

Este texto afirma antes de tudo e com grande precisão o caráter significante do Sabbath: "Os sinais não eram sem simbolismo". Ele então desenvolve este simbolismo em um duplo sentido: eclesiástico e escatológico. Assim, nós encontramos uma vez mais as duas direções tomadas pela tipologia do Sabbath que nós percebemos no Antigo Testamento e encontramos de novo no Evangelho. Concernente à primeira destas direções, Irineu traz os dois aspectos que nós já encontramos com Justino: de um lado, perseverança no serviço de Deus durante toda a vida, de que o um dia reservado a Ele era somente uma figura; e de outro, o cessar de fazer o mal; nós devemos considerar, todavia, que, de acordo com uma idéia peculiar a Irineu, o Sabbath judaico significava a abstenção do trabalho servil, quer dizer, de trabalho rentável (IV, 8, 2; 994 B) e assim era menos a figura de uma abstenção do pecado que do distanciamento das coisas terrenas. Com respeito ao aspecto escatológico, ele se mantém na ordem do Antigo Testamento: o sétimo dia não é a figura do Cristianismo a princípio, como nos textos do Evangelho e da Epístola aos Hebreus, mas é a figura do mundo que há de vir. Este aspecto da tipologia do Sabbath é relatado a Irineu, tanto pela Epístola aos Hebreus quando pelo texto do Gênesis. Assim, nós vemos que a tipologia escatológica do Sabbath foi desenvolvida ao longo das linhas do Gênesis, como tomadas da Epístola aos Hebreus, enquanto a tipologia espiritual foi desenvolvida ao longo das linhas de Isaías, tomadas do Evangelho de São Mateus.

Com Irineu, a tipologia do Sabbath aparece fixada em suas linhas essenciais, negativamente , na justificação para a abolição do Sabbath judaico, e positivamente, no conteúdo do simbolismo do Sabbath. Nós devemos encontrá-lo desenvolvido nestas duas direções por Tertuliano e Orígenes. Tertuliano adota o primeiro aspecto. Seu Adversus Judaeos, que continua o Diálogo com Tifo, é uma parte da controvérsia com o Judaísmo em que a questão do Sabbath estava em primeiro plano. Tertuliano distingue os Sabbaths: "As Escrituras falam de um Sabbath eterno e de um temporal" (Adv. Jud. 4). O Sabbath temporal é humano, o eterno é divino. Este existiu antes do Sabbath temporal: "Assim, antes do Sabbath temporal, havia um Sabbath eterno mostrado e predito antecipadamente. Deixemos os judeus aprenderem que Adão observou o Sabbath, e que Abel quando ofereceu a Deus uma vítima santa, O agradou por cumprir o Sabbath, e que Noé, construtor da Arca por causa do grande Dilúvio, observou o Sabbath" (id). Este Sabbath, de fato, é a adoração de Deus.

Prefigurado pelos patriarcas, "nós vemos que ele é cumprido no tempo de Cristo, quando toda a carne, quer dizer, toda nação, veio a Jerusalém para adorar a Deus o Pai através de Seu Filho Jesus Cristo." É este Sabbath que "Deus quer que nós observemos de agora em diante." É por isto que "nós sabemos que nós devemos nos abster de todo trabalho servil, e que não apenas no sétimo dia, mas em todo o tempo."

Nós encontramos de novo a idéia do verdadeiro Sabbath concebida como a adoração a Deus e abstenção de trabalho servil, entendidos no sentido espiritual, e isto perpetuamente. O interesse da passagem repousa no fato de que Tertuliano mostra que a prática do Sabbath pelos patriarcas era uma figura de sua realização em Cristo. Mas e quanto ao Sabbath temporal, isto é, a instituição mosaica de cessar de trabalhar num dia da semana? Esta era uma instituição temporária, e Tertuliano vê a prova disto no fato de que, mesmo no Antigo Testamento, ela era frequentemente suspensa. Ele usa os exemplos que nós já citamos. "É, então, claro que observâncias deste tipo têm um valor temporário e foram tornadas necessárias pelas circunstâncias do tempo, e que Deus não deu esta lei no passado para ser uma observância perpétua." Por isso o Sabbath, decretado por um tempo, estava destinado a desaparecer: "É por isto que, quando é claro que um Sabbath temporal foi estabelecido e um eterno Sabbath predito, se segue que, todos os prceitos físicos tendo sido dados no passado às pessoas de Israel, um tempo viria quando os preceitos da antiga lei das velhas cerimônias cessaria, e quando a promessa da nova lei viria, quando a luz brilharia para aqueles que estavam nas trevas." Assim Tertuliano completa o que tinha permanecido implícito no pensamento de Irineu mostrando que o Sabbath eterno que já existia no Antigo Testamento ao lado do Sabbath temporal, era ele mesmo uma prefiguração de Cristo, o único verdadeiro Sabbath, e era por este próprio fato o anúncio de que o Sabbath temporal era apenas uma economia provisória.

Como Tertuliano assim torna mais precisa a tipologia do Sabbath quanto a sua forma, assim Orígenes continua o pensamento de Irineu desenvolvendo seu conteúdo, e isto em seu duplo significado eclesial e escatológico. Na XXIII Homilia sobre o Livro dos Números, ele trata da tipologia das várias festas judaicas, ao lado das linhas de Filo no De Decalogo, mas sem pegar nada emprestado dele. "O justo deve também celebrar a festa do Sabbath. Mas o que é a festa do Sabbath senão aquela que o Apóstolo diz: 'Ainda permanece, todavia, um dia de descanso (sabbatismus), quer dizer, a observância do Sabbath reservada ao povo de Deus.' Deixando de lado, então, as observâncias judaicas do Sabbath, vejamos o que deve ser a observância do Sabbath para um cristão. No dia do Sabbath, nenhum dos trabalhos mundanos devem ser feitos. Se, então, tu te absténs de todos os trabalhos que são terrenos, e não se ocupa com nenhum assunto mundano mas se mantém livre para as coisas espirituais, vai à Igreja, escuta as leituras e divinas homilias, medita nas coisas celestes, se preocupa com a esperança futura, considera não as coisas que são presentes e visíveis mas aquelas que são futuras e invisíveis - esta é a observância do Sabbath cristão. Ele que se abstém de trabalhos do mundo e se libera para as coisas espirituais, ele é quem celebra a festa do Sabbath. Ele não leva nenhum fardo na jornada. Pois o fardo é qualquer pecado, como o Profeta diz: Eles me pesam como um fardo pesado. No dia do Sabbath, todos ficam sentados em seu próprio lugar. Qual é o lugar espiritual da alma? Justiça é o seu lugar, e verdade, sabedoria, santidade, e tudo que Cristo é, este é o verdadeiro lugar para a alma. E é deste lugar que ela deveria não sair se é para manter o verdadeiro Sabbath: 'Aquele que permanece em mim, Eu também permanecerei nele.'" (Jo 15, 5) (Ho. Num. XXIII, 4).

Aqui, então, está o sentido espiritual e eclesial. O cumprimento da figura do Sabbath é a vida cristã inteira, que é totalmente espiritual e consagrada a Deus. A este significado, Orígenes acrescenta o sentido escatológico. "Desde que nós temos falado dos verdadeiros Sabbaths, se nós procuramos, indo ainda mais alto, aprender o que os verdadeiros Sabbaths são, é além deste mundo que nós encontramos a verdadeira observância do Sabbath. Isto é, de fato, o que está escrito em Gênesis, que 'Deus descansou no sétimo dia de todas as Suas obras.' Nós vemos que isto não foi cumprido no sétimo dia, e que não é cumprido mesmo agora, pois nós vemos que Deus está sempre agindo e que não há Sabbath em que Ele não aja, em que Ele não cause o nascer do sol sobre o justo e o injusto, para agir e para curar. É por isto que o Senhor, no Evangelho, acusado pelos judeus de agir e de curar no Sabbath, lhes respondeu: 'Meu Pai trabalha mesmo agora, e eu também trabalho', mostrando por isso que em nenhum Sabbath deste mundo Deus cessa de administrar o mundo e de prover as necessidades da raça humana. De fato Ele fez, no começo da criação, substâncias para existirem, tão numerosas quanto Ele, o Criador, pensou necessárias para a perfeição do mundo; mas até a consumação das eras Ele não cessou de administrá-las e de conservá-las. O verdadeiro Sabbath, depois que Deus descansar de todas as Suas obras, será no mundo futuro, quando pesares, tristeza e gemidos desaparecerão e Deus será tudo em todos. Possa Deus conceder que nós possamos festejar neste Sabbath com Ele e celebrá-lo com Seus santos anjos, oferecendo o sacrifício de louvor e dando graças ao Mais Alto. Então de fato a alma irá ser capaz sem cessar de estar presente com Deus e de oferecer a Ele o sacrifício de louvor pelo Sumo Sacerdote, que é um Sacerdote para eternidade de acordo com a ordem de Melquisedec." (Ho. Num. XXIII, 4).

Nós achamos aqui de novo o eco da antiga tradição. Com Justino, Orígenes recorda que Deus não está sujeito ao Sabbath, desde que Ele não cessa de governar a criação. E nós devemos notar que ele conecta o Sabbath com o texto de João 5,17. Esta idéia foi tirada de novo de Clemente de Alexandria (Strom. VI, 16; Staehlin, p.504, 2), mas sem ser conectada com o texto evangélico. Com Irineu, ele mostra que o descanso de Deus que é significado em Gênesis não é somente o tempo presente, mas antes o mundo que se seguirá depois desta criação. O Sabbath portanto é uma figura da entrada do homem no mundo futuro onde ele descansará de suas obras, quer dizer, onde ele irá tomar parte no banquete divino, na liturgia dos anjos, onde ele eternamente oferecerá com Cristo o Sumo Sacerdote o sacrifício de louvor. Aqui estão os verdadeiros Sabbaths de Deus, de que o Sabbath judaico era a distante prefiguração, de que a contínua oração é o começo sacramental na Igreja, e de que a liturgia celestial é o seu pleno cumprimento.

Este aspecto figurativo do Sabbath é aquele que apareceu como o mais impressionante às primeiras gerações cristãs. Preocupada antes de tudo com marcar o fim da ordem judaica e sua substituição pela realidade cristã, ela insistiu sobretudo no fato de que a instituição do Sabbath estava cumprida pelo mistério inteiro cristão. Mas apareceu também que este mistério cristão incluía uma estrutura sacramental, quer dizer, que as próprias realidades espirituais da Igreja se expressavam por meio de sinais visíveis. Os pães da proposição foram abolidos, mas a Igreja possui outro Pão. O Templo de Jerusalém foi destruído e cumprido no Cristo inteiro, o lugar da Divina Presença, mas a Igreja também possui igrejas de pedra, conectadas com a presença eucarística. O Cristianismo não é uma realidade puramente espiritual. Sua essência espiritual se expressa por meio destas realidades visíveis, e isto precisamente é a Liturgia. E isto é verdadeiro de nosso tópico também. O Sabbath foi abolido e cumprido no Cristo ressurreto, mas a Ressurreição de Cristo teve uma comemoração visível, isto é, o Domingo.

Card. Jean Daniélou, Bible and Liturgy, Tradução nossa.
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